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26 de janeiro de 2019

Percepção de si

Só basta o tempo fazer algum silêncio
Só basta o tempo passar mais devagar
E logo a primeira imagem que tenho
Me faz lembrar daquele cotidiano

Onde você está que não está aqui?
Onde estamos sem o outro?

Sinto tua falta e dentro dessa tua ausência eu caio em mim
Essa falta que sinto de ti é mais falta de mim

O tempo passa e com ele vai revelando minhas lacunas e meus silêncios
Nisso tudo você é apenas um traço nesse emaranhado
Levo comigo rupturas e descontinuidades que parecem me embalam desde o tempo que me trouxe aqui

Por isso me perco nas rupturas
Me perco nos fins
Me perco nos tempos que findam
Me perco na areia que faz o tempo pausar/passar

Quando você se foi
Dei um jeito de continuar
E enquanto você ia
Eu continuava
Continuava e me despedia de outros tempos

Tenho medos
Tenho sonhos
E busco caminhos seguros
Enquanto procuro por eles
Me sinto pausado, parado
E eis que é apenas meu inconsciente consciente de que preciso respirar para arejar

Preciso me reconectar com meus medos reais e meus sonhos impossíveis/possíveis

Antes disso, escrevia sobre o tempo e me dei conta de que escrevia sobre mim

O tempo não faz pausas
Porque a pausa não tem poder sobre o tempo
O tempo é existência
Quando não há liberdade, há rebelião
Não há quem possa conter a percepção de si

Estou tentando falar de mim
Estou tentando me compreender
Compreender o meu tempo agora
Compreender o que este tempo está fazendo comigo

Estou em silêncio para observar o que estou fazendo dele
Do tempo que conquistei
Do tempo que vivo
Do tempo que me confiaram   

1 de outubro de 2018

Aos cristãos, com amor: #EleNão

"Toda a lei se resume num só mandamento: "Ame o seu próximo como a si mesmo". (Gálatas 5:14).
É com carinho, afeto e respeito à minha trajetória na Igreja Evangélica do Betel Brasileiro em Manaíra, iniciada aos 5 anos de idade e encerrada aos 22. É com carinho, afeto e respeito aos três anos e meio que estive como seminarista, no Seminário do Betel Brasileiro em João Pessoa. É com carinho, afeto e respeito à todos os cristãos, praticantes ou não. Dedico este texto às pessoas que encontrei ao longo do caminho, às relações que construí ao longo dos meus 34 anos de vida.
Viver em comunidade é um desafio para qualquer um de nós, pensar o tamanho desse desafio para um país continental como o Brasil, é refletir sobre nossas realidades tão múltiplas, tão distintas, mas que nos torna um único povo: brasileiro.
Neste momento, há um eco que vem apresentando e defendendo enquanto ideal, uma única forma de ser, de existir e de estar neste mundo. São discursos que praticamente estão removendo o espaço para a reflexão, removendo também a possibilidade de nos reconhecemos naqueles que julgamos diferentes.
As vezes, tentar fazer essa reflexão quanto à diversidade cultural do nosso país, pode parecer uma tarefa inviável para alguns de nós, uma vez que esta proposta vem sendo sabotada e taxada/rotulada por ter um caráter "ideológico". Fazendo uso do termo que tem sido utilizado para gerar fissuras, rachaduras e tornar inviável o nosso convívio enquanto povo.
Por isso, proponho pensar acerca dessa nossa diversidade, num contexto mais "próximo", porém, também desafiador que é o universo também diverso das Igrejas Evangélicas em nosso país. Quem não faz parte desse universo, reconhece com tranquilidade esse mosaico que pertence às igrejas evangélicas. Mas quem é, ou foi parte desse contexto, tem uma maior dimensão do quão múltiplo e "infinito" é este território.
Pensar na diversidade dessas comunidades, é reconhecer essa pluralidade de perspectivas e interpretações, dentro de uma única igreja. O modo de perceber os dogmas, tem por finalidade propor um modo de vida, um modo de ser cristão.
E quando voltamos nossos olhos para as comunidades de fé, essa diversidade ganha uma amplitude incrível. Temos alguns nomes de igrejas para pensar no tamanho desse universo cultural: Igreja Batista, Igreja Assembleia de Deus, Igreja Deus é Amor, Igreja Universal do Reino de Deus, Igreja Presbiteriana, Igreja Luterana, Igreja Congregacional... e por aí vai.
Só em ler os nomes dessa igrejas, algumas pessoas já conseguem visualizar esse panorama plural que determinar formas de compreender, anunciar e viver a fé cristã. Reconhecer a diversidade interna, pode ajudar cristãos não apenas a reconhecer a diversidade também existente em nosso país, mas respeitá-la. A igreja evangélica tem seus debates, discordâncias e "Inimizades" internas. Algo que sempre achei contraditório quando considerava a mensagem que percebemos enquanto central do cristianismo:
"Um novo mandamento lhes dou: Amem-se uns aos outros. Como eu os amei, vocês devem amar-se uns aos outros. Com isso todos saberão que vocês são meus discípulos, se vocês se amarem uns aos outros". (João 13:34,35).
Neste momento, percebemos que uma parcela significativa da maioria das igrejas evangélicas, independente de suas dominações, estão ressoando um único discurso quanto ao cenário político do nosso país. Há um envolvimento gigantesco de líderes religiosos, pastores, missionárias, cantores/artistas e grupos de louvor/música gospel, fechados num acordo/apoio com um candidato específico. Há algum problema em declarar apoio à um candidato? Entendo que não e defendo o nosso direito de assim fazê-lo.
Porém, o discurso desse candidato que está sendo não apenas acolhido, mas reproduzido dentro das igrejas evangélicas, é completamente contrário aos ensinamentos e vida de Jesus Cristo.
Sabemos que historicamente, inúmeras pessoas e grupos ao redor do mundo fizeram referência ao nome de Jesus para cometer atrocidades contra a humanidade. A escravidão, por exemplo, foi justificada por protestantes e católicos com base em textos bíblicos. No contexto dos Estados Unidos, mesmo com a criminalização da escravidão, cristãos brancos não aceitavam dividir os mesmo espaços que as pessoas negras. Desse modo, fora instalada ali a segregação racial que se estendeu por quase toda década de 1970, perseguindo, humilhando, torturando e matando pessoas negras.
Contudo, Martin Luther King, um pastor protestante negro, levantou sua voz contra aquele regime desumano, defendido e empreendido por pessoas que anunciavam a fé cristã. Num movimento popular, homens e mulheres negras, decidiram boicotar o transporte público, já que permanecer sentado enquanto uma pessoa branca ficava de pé, era considerado crime. Isso só aconteceu depois que uma mulher negra (Rosa Parks), foi presa, algemada e teve o seu julgamento marcado por simplesmente se recusar a ceder seu lugar a uma pessoa branca.
“Quero assegurar a todos que trabalharemos com vontade e determinação para fazer prevalecer a justiça nos ônibus da cidade. Não estamos errados. Se estivermos errados, a Suprema Corte desta nação está errada. Se estivermos errados, a Constituição dos Estados Unidos está errada. Se estivermos errados, Deus Todo-Poderoso está errado.” (Martin Luther King).

Infelizmente, pessoas negras, indígenas, quilombolas, mulheres e homossexuais - por exemplo - ainda são tratados com muito preconceito e violência não apenas no Brasil. Algumas igrejas históricas dentro do contexto protestante e a própria igreja católica já reconheceram erros outrora cometidos por líderes em outros tempos.
"Bem-aventurados os pacificadores, pois serão chamados filhos de Deus." (Mateus 5:9).
Muito me preocupa esse cenário, onde líderes evangélicos estão militando em favor de um candidato que abertamente fala em aniquilar/fuzilar seus adversários políticos. Dizendo que "minorias devem se curvar às maiorias ou desaparecer". O mesmo declarou ser a favor da tortura e prestou homenagem à um torturador em plenário, condenado pela justiça por sequestro e tortura.
Enquanto isso, o símbolo dessa campanha é um gesto que feito com as mãos, simula uma arma de fogo. Esse gesto tem sido reproduzido por seus apoiadores nas redes sociais, nos comícios e carretadas. Quem não lembra da criança nos braços do candidato? O momento em que ele ensinou como a menina deveria reproduzir o gesto que simboliza um revólver. Quando questionado, disse que aquela era sua marca registrada, que representava o cristianismo e o povo de bem.
Tem mais um ponto que eu gostaria de destacar. Entre tantos outros discursos de ódio proferidos pelo candidato, tem um que me chama atenção. O ódio aos imigrantes e refugiados. Mais uma vez, o texto bíblico é categórico quando nos faz lembrar da fuga de Maria e José para o Egito a fim de preservar a vida de Jesus, que estava sob ameaça de morte por determinação do rei Herodes.
" (...) um anjo do Senhor apareceu a José em sonho e disse-lhe: "Levante-se, tome o menino e sua mãe, e fuja para o Egito. Fique lá até que eu lhe diga, pois Herodes vai procurar o menino para matá-lo". Então ele se levantou, tomou o menino e sua mãe durante a noite, e partiu para o Egito." (Mateus 2:13,14)
Não há como sustentar a ideia de que o apoio a este candidato se dá ou se justifica por um ato de fé, ou de amor à Jesus Cristo.

Não há espaço na vida de Cristo para o ódio, a violência, a perseguição de "adversários", nem tão pouco para a ameaça daquilo que é percebido enquanto indiferente. O tempo que passei dentro da igreja me foi suficiente para decidir o tipo de pessoa que quero ser. Trago comigo, na minha vida aquilo que percebo enquanto ponto central da vida de Cristo, o amor, a compaixão, a empatia, a misericórdia. Esse é o meu desafio diário: amar. E hoje ver essa mensagem de empatia e transformação social, ser sequestrada, torturada e silenciada por tanto ódio, é não apenas doloroso, mas assustador.
"Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?" Respondeu Jesus: " ‘Ame o Senhor, o seu Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo o seu entendimento’. Este é o primeiro e maior mandamento. E o segundo é semelhante a ele: ‘Ame o seu próximo como a si mesmo’. (Mateus 22:36-39).
Também não consigo ver coerência no discurso de uma pessoa que se diz cristã, abrir mão da essência do cristianismo, que é "o amor ao próximo" a fim de pleitear uma guerra contra outras formas de crer e de viver. Digo isso considerando mais uma vez o texto bíblico:
"Não por força nem por violência, mas pelo meu Espírito." (Zacarias 4:6).
Se alguém pretende "ser luz" neste mundo, é importante considerar que os dogmas e os preceitos da fé que você pratica, pertence à você e sua comunidade. Imagine se cada religião tivesse como projeto impor sua forma de ver e perceber a existência à toda sociedade. Imagine você ter que seguir os preceitos de uma fé/religião que você não escolheu. Como se sentiria? Para tanto, vale lembrar quem foi e como viveu Jesus, a fim de não propagar um discurso que silencia, desconstrói, criminaliza e nega tudo quanto Cristo anunciou.
Percebi nas religiões divergentes, um discurso comum: Vencer o mal com bem. Que nessas eleições, você possa lembrar do caminho que você trilhou, dos caminhos que os teus pais e teus avós percorreram para que você pudesse estar aqui. Que possamos lembrar das injustiças que o nosso povo sofreu ao longo da história. Que possamos lembrar das violências que o povo negro no nosso país sofreu e ainda sofre. Que possamos olhar com a atenção para as mulheres da nossa vida. Que o nosso voto não seja conivente com a injustiça.

Que o nosso voto não seja uma reprodução do ódio, da violência, da humilhação, do abuso, da tortura e do preconceito.
E quem sabe assim, possamos perceber o nosso lugar social e ver o nosso país enquanto uma comunidade imensa, que de fato é.
E quem sabe assim, a gente possa se reconhecer no outro, e decidir aceitar o desafio de Cristo que diferente de muitos dos que falam em nome dele pregando o ódio, sempre pregou o amor.
Além do #EleNão, você tem outros 11 candidatos. 
Um abraço afetuoso.

28 de dezembro de 2017

O modo como tenho vivido...

Faz algum tempo que escrevi aqui.
Ao menos, sinto que diminui a frequência.
Não sei ao certo se ainda escrevo para alguém.
No entanto, preciso destacar que quando comecei a postar alguns textos aqui, não buscava exatamente, ou não apenas ter do outro lado da tela alguém que pudesse ler meus textos.
Mas preciso reconhecer o quanto essa ideia me faz bem, por mais que me deixe preocupado com o modo como escrevo - estou falando dos meus limites com a escrita propriamente.
Escrevo desde a infância, tenho alguns textos guardados - não da forma ideal.
E no cotidiano, continuo escrevendo, porém, perco a maioria desses relatos.
Hoje (28/12/2017), tenho passado por algumas pressões e reflexões, externas e sempre internas.
Pensei há tempos atrás que algum dia essas reflexões haveriam de me dar um intervalo.

Troquei de roupa, mudei a rotina, passei por transformações, mudei a prioridade de alguns pensamentos, redistribui seus lugares na fila, resolvi alguns dilemas essenciais, venci alguns monstros - não todos -, de todo modo, hoje me sinto melhor, ainda que tenha comigo outras angustias do presente.
Mas quando olho o caminho que já trilhei, me dou conta do quanto fui forte, dos inúmeros obstáculos que superei - alguns comuns à todas pessoas, outros exclusivamente meus - contextos.
Sinto uma certa felicidade por ter superado tanta coisa, mesmo não tendo a estabilidade financeira tão sonhada, mas estou satisfeito com o modo como tenho vivido e compreendo as implicações de tudo isso.

Quanto a necessidade que tenho de escrever tais reflexões, esta prática me ajuda a ter uma visão panorâmica de mim, dos meus processos, dos meus dilemas e desafios.
É sempre um alívio fazer isto...

Um abraço gigante.

29 de outubro de 2017

Uma oração, uma prece, um mantra, uma meditação

Que nesta manhã
As nossas forças sejam renovadas
Que o nosso espírito encontre paz
E que a nossa existência perceba a intensidade de uma caminhada serena
Que possamos caminhar em gratidão, abraçar em gratidão, viver em gratidão

21 de outubro de 2017

Vinte e quatro horas por dia

Já respirei saudades
Vinte e quanto horas por dia

Já fui lembrança
A cada novo passo

Já fui ausência
No café, no almoço e no jantar

Já não sou mais o que fui um dia
Sou outro homem
Um novo homem
Ainda que parte do mesmo

Tenho outros sentimentos
Tão intensos quanto as saudades que um dia senti

Tenho outros sentimentos
Tão intensos quanto a ausência que me habitou

Sou liberdade
Vinte e quatro horas por dia

Também faço minhas escolhas

Respeito o que sinto
Respeito o que penso
Respeito e silêncio aquilo que não conheço

Observo mais
Ouço com mais delicadeza
Ouvir, apenas ouvir

Se sinto que é bom
Se sinto que é luz
Se sinto que é amor
Acolho e escolho

Torno ainda mais intenso o que sinto melhor
Ou me reservo o direito de recuar se não me fizer tão bem assim

Tem que me fazer bem
Tem que propagar o bem
Não só à mim
Não só aos meus

O bem deve ser possível à todas
Todas as pessoas

Tenho autonomia compartilhada
Trilhando novos caminhos
Descubro outros de mim

A cada nova situação
Me percebo outro, melhor

Mais leve
Menos tenso
Mais feliz

Quando não, é simples
Me reprogramo
Não eletronicamente
Mas sempre com música

Conectado comigo
E com o nosso universo
Me faço outro
Me refaço outra vez
E mesmo assim, continuo sendo eu a cada novo recomeço.


9 de outubro de 2017

Meu renascimento - Uma reflexão sobre a #curagay e a #homofobia.

No dia 18 de novembro desse ano, celebro meu renascimento. Isso mesmo. 18 de novembro de 2007 foi o dia em que eu renasci. Há dez anos atrás me vi mergulhado num quadro depressivo que parecia não ter jeito.
Naquele contexto, eu vivia um drama acentuado, havia saído de um Seminário Evangélico, faltava apenas um semestre para me formar em Bacharel em Teologia, quando precisei enfrentar naquele contexto o meu maior drama, o meu maior fantasma.
Minha infância foi marcada por algumas violências, por ter alguns “jeitinhos”. Sempre ouvia algumas sentenças: “Isso é coisa de mulher!” “Seja homem!” “Seu viadinho!” Na minha adolescência havia tomado uma decisão: não ser homossexual. Como se isso fosse uma questão de escolha, tipo: “Hoje vou tomar café com leite”.
Naquele momento eu tinha exatos 23 anos. Naquele momento eu tinha um projeto de vida, meu sonho era ser pastor, meu sonho era não ser homossexual. Por favor, não estou sendo irônico, mas franco e sincero.
No entanto, me deparei com a minha realidade, com o sujeito que eu era e sou. Há dez anos, há exatos dez ano, minha alma, minha mente, meu coração... tudo em mim era apenas dor. Naquele momento, eu entendia que a homossexualidade, ou melhor, o meu sentimento e atração por pessoas do mesmo sexo, estava me destruindo, destruindo a minha vida. Tudo o que eu queria era me livrar da minha homossexualidade.
Me submeti à uma terapia que tentou me conduzir ao fator que supostamente me fazia sentir desejo por homens. Embarquei numa tortura que quase me tirou a vida. Embarquei numa investida onde o único objetivo era a reversão. Tudo o que sentia era dor. Se por acaso, havia algum sentimento diferente disso, era nojo, vergonha, medo, raiva. Nada ali me fez bem.
Mas eu não tinha forças, não tinha força alguma para romper com aquilo. Aquela parecia ser a única forma de resolver aquele problema. Aquela tortura seria para o meu bem. Eu haveria de me curar, de me livrar da minha homossexualidade. E se eu deixasse de ser homossexual, eu poderia ter minha vida de volta. As pessoas iriam gostar de mim, iriam me respeitar, iriam ser minhas amigas.
Eu fiz tudo o que eu podia para deixar de ser gay. Orava à Deus, pedia que tivesse misericórdia de mim, que me transformasse, que me livrasse daquele “mal”. Mas nada que eu fizesse adiantava. Comecei a pedir a Deus que me tirasse a vida, pra que minha família e meus amigos evangélicos não passassem pela vergonha de ter um gay na família, ou um gay como amigo – quanto absurdo.
Trabalhava num shopping da cidade e comecei a me expor em situações de risco. Lembro que voltava para casa do trabalho tarde da noite, caminhando pelas ruas de Manaíra. Esperava que alguém na rua me abordasse em um assalto e ali, naquele assalto eu poderia ter os meus problemas solucionados. Uma tiro no peito ou na cabeça, haveriam de me livrar daquela dor.
Até que na noite do dia 17 de novembro de 2007, eu não conseguia encontrar o sono. Pela terceira vez consecutiva, eu não dormia, apenas chorava, chorava e chorava. Não sei qual era a hora quando me levantei da cama para ir ao banheiro. Quando estava saindo do banheiro, vi uma caixa, do tamanho de uma caixa de sapatos, onde minha mãe guardava os remédios da casa.
Não sei explicar. Não sei como foi aquilo. Não havia planejado. Mas naquela hora, eu não pensava em outra coisa. Tomei todos os remédios que estavam ao meu alcance, todos. Eu não pensava em outra coisa, apenas queria me livrar daquela dor, da minha vida, da minha vergonha, do meu medo, da minha culpa, dos olhos que me julgavam, dos dedos que me apontavam, de todos os preconceitos que eu sofria e sem dúvida alguma, o pior deles era todas as ideias que tinha contra mim.
O dia amanhecia, quando minha mãe tentou me acordar. Assustada, perguntava o que eu havia feito com todos aqueles remédios. Lembro que respondi que havia tomado todos. E ela me perguntou por qual motivo eu havia feito aquilo. Respondi que queria morrer. Me segurando nos braços ela gritou por meu irmão, chamava chorando por todos que pudessem ouvir.
Meus irmãos me colocaram num carro. Estavam comigo no banco de trás do carro. Ela de um lado, ele do outro e eu no meio. Quanta dor. Tenho algumas lembranças fragmentadas daquele momento. Lembro de chegar ao hospital, de ser conduzido por meus irmãos até uma maca. Lembro do choro deles. Lembro que o dia amanhecia.
Conversando com minha mãe, no início desse ano de 2017, ela disse que não conseguiu ir ao hospital. Que não tinha forças. Que não queria me ver morrer.
Quando acordei daquela investida mal sucedida – graças a Deus – já havia deixado de ser manhã. Era a tarde linda de 18 de novembro de 2007. Voltando pra casa. A casa estava cheia. Tinha muita gente, muita gente mesmo. Francamente? Eu não tinha nem energia para olhar pra eles.
Ao meu lado, uma amiga e ex-namorada. Ela estava de moto. Pedi pra que ela me tirasse dali. Eu mesmo fui pilotando a moto e ela comigo. Fui até o mirante da Praia do Cabo Branco, aquele antes do farol. Ali, diante do mar e do céu, olhando o horizonte, naquele fim de tarde de um domingo, eu renascia.
Fiz à Deus uma promessa. Que nunca mais na minha vida iria lutar contra aquilo que eu era.
Hoje, madrugada do dia 9 de outubro de 2017, escrevo este texto por algumas razões.
Antes de qualquer coisa, sei que tem muita gente que já tirou sua vida, pelo simples fato de não aceitar sua homossexualidade. Também sei, que muitos podem estar reféns da depressão e do desejo de morte, por achar que a homossexualidade é um pecado, um erro, uma falha, ou algo pelo qual devemos sentir vergonha e culpa. Não!
Minha homossexualidade não me tornou um ser um humano pior ou melhor que outros. Minha homossexualidade não me fez infeliz, inferior, indigno ou qualquer coisa do tipo. Se havia alguma coisa da qual eu precisava me livrar, era das minhas culpas, das minhas angustias e dos meus preconceitos.
A luta contra minha homossexualidade, me tornou um ser humano infeliz, me levou à depressão e me fez tentar suicídio. Depois desse fatídico dia, fui levado por amigos a uma médica psiquiatra, e a partir daquele momento eu comecei a tratar da minha depressão com medicamentos e obviamente que abri mão daquela terapia reversa que apenas me torturava e que me dizia que deveria ser alguém que eu não era. Ao mesmo passo, me dizia que aquela pessoa que eu era, não deveria existir.
Hoje tenho uma relação linda e singular com toda a minha família e pessoas amigas. Amo meus pais e sou amado por eles. Minha mãe é minha melhor amiga. Meus irmãos são os melhores amigos que eu poderia ter. E do mesmo modo, acolho e sou acolhido com afeto por minha avó, por meus sobrinhos, tios, tias, primos e primas – Não há unanimidade. Alguns insistem em me lembrar de alguns trechos bíblicos que condenam a homossexualidade. Muitos se esquecem de tantas outras condenações feitas no mesmo texto. Limitam-se as condenações. Flexibilizam o mesmo texto quando estão na mira do dedo que aponta. Desconsideram o amor contido ali.
Pois bem, minha homossexualidade não me faz triste.
Ser quem sou me faz uma pessoa feliz, é maravilhoso poder ser você mesmo.
Se tem uma coisa que me entristece é o preconceito, o ódio e as violências das imposições, dos discursos moralistas, das falas e posturas hipócritas. São discursos como esses que violentam psicologicamente e que ao mesmo passo “legitimam” o ódio em tantas pessoas que de forma banal e desumana, decidem tirar a vida de alguém pelo simples fato de não aceitarem que eles possam ser quem são.
Hoje eu escrevo para dizer que não aceito tais discursos.
Escrevo para dizer que não vou me calar diante de todas as investidas malignas de criminalizar a homoafetividade.
Ainda que "vocês" continuem nos tirando o direito à vida.
Enquanto muitos decidem odiar homossexuais, eu decidi ser quem sou, decidi viver minha vida. Aprendi a me respeitar e me querer bem. Meu mundo ficou bem melhor assim, não só meu, mas de todos que estão perto de mim.
Eu renasci.
Apenas um detalhe. No dia 18 de novembro, Elza Soares estará se apresentando no Teatro Pedra do Reino em João Pessoa. Momento lindo para celebrar a vida e o meu renascimento. Vamos?


11 de setembro de 2017

Confissões - Sou grato ao universo por cada acontecimento e encontro

Foram tantas vezes que a vida me mostrou a necessidade de um recomeço, que as vezes uma tristeza um tanto esperta e traiçoeira, tentou me dar aquela rasteira.
Sim, já levei algumas rasteiras da vida, e uma delas literalmente me jogou no chão.
Neste dia, pensei que não mais conseguiria ficar de pé.
Cada pessoa leva consigo suas dores, suas marcas e eu tenho as minhas.
Algumas mais leves, outras mais intensas.
Mas acima delas, tenho comigo não apenas a força da vida, mas a alegria, o prazer de estar vivo e poder viver.
Não gosto de ficar revendo o passado que me faz sofrer, no entanto, não posso negar os caminhos que trilhei.
Porém, quando essas lembranças tentam falar mais alto do que todo o caminho que trilhei, logo corro para abraçar os meus amigos e a minha família.
Quando estou com eles, ou quando estou fazendo algo que gosto, mesmo que sozinho, sinto que a forma como abraço as boas energias, me fortalece e me faz ir além da minhas dores.
Além de amar as minhas pessoas querido, amo estar comigo...
Gosto de ver o cair da tarde.
Gosto de ver o dia nascer.
Gosto de caminhar pelas ruas da cidade.
Me sinto bem caminhando pela orla, seja no calçadão ou na praia...
Gosto de estar com os pés descalços...
Gosto de abraçar e dizer que amo.
Necessito ser grato às pessoas e ao universo por tudo, inclusive pelas dores, afinal de contas, em tudo o que vivo e experimento, sempre haverá a oportunidade de ser uma pessoa melhor, para mim mesmo e para o mundo.
Deixo hoje aqui registrado a minha alegria por estar vivo.
A minha gratidão por cada momento que me foi possível recomeçar.
A minha gratidão ao universo, por cada pessoa, por cada experiência.
Que possamos sempre, compartilhar com o mundo a nossa alegria e gratidão pela vida...

15 de agosto de 2017

Elza Soares - Mulher do Fim do Mundo / The woman at the end of the world







Meu choro não é nada além de carnaval
É lágrima de samba na ponta dos pés
A multidão avança como vendaval
Me joga na avenida que não sei qualé

Pirata e super homem cantam o calor
Um peixe amarelo beija minha mão
As asas de um anjo soltas pelo chão
Na chuva de confetes deixo a minha dor
Na avenida, deixei lá
A pele preta e a minha voz
Na avenida, deixei lá
A minha fala, minha opinião
A minha casa, minha solidão
Joguei do alto do terceiro andar
Quebrei a cara e me livrei do resto dessa vida
Na avenida, dura até o fim
Mulher do fim do mundo
Eu sou e vou até o fim cantar
Meu choro não é nada além de carnaval
É lágrima de samba na ponta dos pés
A multidão avança como vendaval
Me joga na avenida que não sei qualé
Pirata e super homem cantam o calor
Um peixe amarelo beija minha mão
As asas de um anjo soltas pelo chão
Na chuva de confetes deixo a minha dor
Na avenida, deixei lá
A pele preta e a minha voz
Na avenida, deixei lá
A minha fala, minha opinião
A minha casa, minha solidão
Joguei do alto do terceiro andar
Quebrei a cara e me livrei do resto dessa vida
Na avenida, dura até o fim
Mulher do fim do mundo
Eu sou, eu vou até o fim cantar
Mulher do fim do mundo
Eu sou, eu vou até o fim cantar, cantar
Eu quero cantar até o fim
Me deixem cantar até o fim
Até o fim, eu vou cantar
Eu vou cantar até o fim
Eu sou mulher do fim do mundo
Eu vou, eu vou, eu vou cantar
Me deixem cantar até o fim

The woman at the end of the world

La la la laia la la laia
La la la laia la la laia
Até o fim eu vou cantar, eu quero cantar
Eu quero é cantar, eu vou cantar até o fim, la la la lara la lara laia
Eu vou cantar, eu vou cantar
Me deixem cantar até o fim
Me deixem cantar até o fim
Me deixem cantar
Me deixem cantar até o fim

Lá estou eu, vivendo outra vez



Sobre caminhos
Caminhos que trilhei
Alguns, confesso que nem sei como sobrevivi

Sou frenético o tempo todo
Consigo gerar silêncio interno ao mesmo tempo
Ao mesmo tempo que preciso me defender

Após uma angústia
Lá estou eu diante do pôr-do-sol
Lá estou eu caminhando descalço de uma ponta a outra da praia
Lá estou eu tomando um café ou um chocolate quente
Lá estou eu preparando aquela macarronada ou salada para os meus amigos





Logo depois de uma dor intensa
Lá estou eu preparando aquele churrasco ou aquela feijoada para e com a minha família
Lá estou eu vendo o sol nascer
Lá estou eu tomando banho de mar, de rio, de cachoeira, de piscina, de chuveiro no quintal
Lá estou eu andando nu em Tambaba










Depois de um dia inteiro acompanhando meu pai no hospital
Lá estou eu comprando chocolate amendoins no supermercado
Lá estou eu levando flores e um livro para algum amigo
Lá estou eu dando e recebendo carinho de Belinha, Marley, Dilma ou Klymth
Lá estou eu cuidando do jardim de uma amiga

Não poderia ser diferente
Eu não poderia trair a vida
Eu não poderia tornar tudo ainda mais doloroso
A vida é tão linda, tão leve, tão generosa, tão especial, tão possível...

Bom, agora preciso dormir
É hora de voltar pra cama








Fragmentos livres de mim

Me embriado em pensamentos
Me perco em lembranças
Me encontro em caminhos que trilhei

Me apaixono por memórias
Me entrego a novos sentimentos
E quando sinto que preciso recomeçar
Simplesmente recomeço

Não sei ser diferente
Não posso ser outro
Não me sinto confortável sendo meio termo

Não me sinto feliz, tentando ser quem não sou
Por isso, não tento
Não arrisco em algo que não me move
Não pago pra ver, quando não sinto

Vivi pouco, é verdade
Mas o que vivi, vivi intensamente
Pois quase tudo o que fiz nesta vida, foi por simplesmente sentir

Por vezes, algumas decisões soaram um tanto equivocadas
Equivocadas leituras, equivocadas prévias
Equivocadas opiniões

A vida também é feita de equívocos
Até que o universo decide nos surpreender

Nasci para sentir
Nasci para viver essa busca pelo prazer, pela essência nas coisas simples
Pelo abraço dos meus pais, primos, tias, avó, irmãos e sobrinhos nos almoços de domingos

Nasci para encontrar e reencontrar pessoas amigas de outras vidas, nesta que vivo agora
Nasci para compartilhar, a fé, o amor, a esperança e a força que tenho comigo
Nasci para amar e ser amado, ainda que "só"

Nem tudo em meu caminhar é essencialmente poesia
Mas tudo aquilo que de algum modo, insista em me afastar da ternura e da melodia
Logo mais, logo menos, o espinho em mim há de brotar flor

Sou inteiro, ainda que fragmentado
Sou intenso, ainda que cuidadoso
Sou sentimento bom, ainda que por vezes surpreendido por lembranças que questionam o meu sentir

Sou leveza, ainda que firme
Sou felicidade, ainda que pise descalço o chão que trilho
Sou o meu próprio recomeço

Sou um
Sou muitos
Sou memórias
Sou afeto
Sou a teimosia em pessoa
Sou alegria
Sou Fernando
Sou Preto
Sou Nando
Sou humano


13 de agosto de 2017

Dia dos Pais. Pai: "Ôh Preto, quando é que tu vem?"

Estou no Rio Grande do Norte e fiz aquela ligação pra painho, que está na Paraíba. 
Acho que em muitos anos, esse é o nosso primeiro Dia dos Pais que não estamos reunidos. 
Aí segue um pedacinho da nossa conversa:


Eu: 'Bença' pai?!
Pai: Deus te abençoe meu filho. Muito feliz de estar falando com você.
Eu: Também pai, estou muito feliz de falar com o senhor.
Pai: Olhe, estou com saudades de você. Faz muitos anos que a gente não se fala. (Deve ter uns quinze dias que eu estava com eles - hehehehe  ).
Eu: (Não questiono o tempo sugerido: muitos anos. Apenas mantenho a conversa e foco na fala dele.) Eu também pai, estou com saudades do senhor.
Pai: Estou muito feliz por você ter me ligado. Ainda bem que hoje é o Dia dos Pais, se não você não me ligava. (Agora eu me entrego, acabo rindo ao telefone. Também não questiono, mantenho o 'fluxo').
Eu: Exato painho, ainda bem que existe esse dia, pra gente lembrar. Te amo muito.
Pai: Obrigado por tudo, viu? Sinto tua falta. Estou muito feliz de você ter me ligado. Ôh Preto, quando é que tu vem?
Eu: Pai, devo estar indo no próximo fim de semana. Vou e fico aí com vocês.
Pai: Olhe, guardei um jerimum pra você. Cobri com mato. Pra quando você chegar! É você quem vai procurar ele e vai tirar ele pra gente comer. Viu?
Eu: Tá certo pai, quando eu chegar vou procurar o jerimum no mato e vou tirar ele pra gente comer. (Eu não gosto muito de jerimum, mas esse deve ser saboroso).
Feliz dia dos pais.


10 de julho de 2017

Palavras soltas, desconexas

Ele temia a solidão
Mas em tempos de chuva, gostava de ficar só
Ouvia Edit Piaf
Tomava chá, leite e café
Escrevia palavras soltas, desconexas, sem propósitos
Caminhava na orla, de uma ponta a outra
Via beleza no outono
Gostava das folhas secas encontrando a grama verde
Também via beleza nos ipês amarelos
Fica por horas diante do mar
Em silêncio, ele, sua alma e o mar
As vezes, mergulhado em seus silêncios, conseguia se refazer, se por de pé e lentamente, cantando alguma canção do rádio, ele voltava a caminhar.


9 de julho de 2017

Quando você se foi

Você foi e eu fiquei
Fiquei parado no tempo
Tentei fazer qualquer coisa
Fiz tudo o que podia
Mas tudo, absolutamente tudo
Tudo me trazia você

Você se foi e eu fiquei
Fiquei te esperando
Te esperei consciente
Inconscientemente te esperei
Nem você, nem eu
Ninguém voltou

Você se foi e o tempo parou
Por um instante, não sabia se era dia
Por alguns instantes, não sabia se era noite
O tempo converteu-se numa única eternidade
Tudo era inverno
Inverno era outono, haviam folhas no chão

Você se foi e eu chorei
Chorei como uma criança
Chorei de dor
Chorei por amor
Chorei para me consolar
Chorei tentando me fortalecer

Você se foi e me escondi
Me escondi da vida
Me escondi dos amores
Disse não à poesia
Evitei encontros
Mas não conseguia evitar você

Você se foi e eu me perdi
Esqueci como se ama, tentando não te amar
Busquei por novos caminhos
Descobri outros em mim
Percebi um outro eu sem você
Contudo, preferia você comigo

O tempo passou
O tempo passa
Mas é raro um dia que eu não lembre de você, de nós dois.


6 de julho de 2017

Sonetos Serenos

Sonetos serenos
Silêncios expostos

Ele fechava os olhos
E caminhava dentro de si

Entre lembranças
Entre afetos e memórias

Ele revivia sentimentos
Num momento entregava-se a melodias

Num outro era apenas resistência
Resistia ressentir aquilo que julgava improvável

Mas o improvável, existia
O improvável também resistia dentro si.

3 de julho de 2017

Não temia ser percebido feminino

Era intenso feito fogo
Não tinha medo de amar
Não temia sofrer

Era sereno feito vento
Um constante apaixonado
Não temia sentir

Amante, errante
Desvairado, debochado
Teimoso, delicado

Caminhava com tranquilidade
Buscava perceber o sentimento, em si, nos outros, no cotidiano

Não temia ser percebido enquanto memino
Não temia ser percebido feminino
Para viver seu amor, não mediria esforços

Não era homem disposto a certas negociações
Quando amava, amava mesmo